Préstito Fúnebre
Guerra Junqueiro (?–1923)
O começo
Que alegrias virgens, campesinas, fremem / Neste imaculado, límpido arrebol! / Como os galos cantam!… como as noras gemem!… / Nos olmeiros brancos, cujas folhas tremem, / Refulgente e novo passarinha o sol!…
Pela estrada, que entre cerejaes ondea, / Uma pequerrucha,--tro-la-ró-la-rá!-- / Vae cantando e guiando o carro para a aldeia… / São os bois enormes, e a carrada cheia / Com um castanheiro apodrecido já.
Oh, que donairosa, linda boieirinha! / Grandes olhos garços, sorrisinho arisco… / Daguilhada em punho lepida caminha, / Com a graça aérea dave ribeirinha, / Verdilhão, arveola, toutinegra ou pisco.
Loira, mas do loiro fulvo das abelhas; / Fresca como os cravos pelo amanhecer; / Brincos de cerejas presos nas orelhas, / Na boquita rosea três canções vermelhas, / Na aguilhada, ao alto, uma estrelinha a arder!
Descalcinha e pobre, mas sem ar mendigo, / Nada mais esvelto, mais encantador! / Veste-a doiro a gloria do bom sol amigo… / O chapéu é palha que inda há um mês deu trigo, / A saíta é linho inda há bem pouco em flor!…
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