In Pulvis
Guerra Junqueiro (?–1923)
O começo
Oh, que noite negra, que invernia brava! / Nem uma estrellinha pelo céu reluz! / Chora o vento ao longe com a voz tão cava, / Como quando dizem que de dor chorava / Toda a santa noite em que expirou Jesus!…
Vem sanguinolentos gritos muribundos / Das soturnidades torvas do horizonte!… / Já nos ermos andam lobos vagabundos… / Já os rios cheios, com bramidos fundos, / Num diluvio dágua vão de mar a monte!…
Em casal de serras arde o castanheiro, / Lampada de pobres a fazer serão; / De redor do grande, festival braseiro, / A velhinha, o velho, o lavrador trigueiro, / A mulher, os filhos, o bichano e o cão.
Queima-se o gigante, rude centenário, / Que jamais os astros hão-de ver florir… / E do seu cadáver o esplendor mortuário / Faz dessa choupana quase que um sacrario / Com uma alma doiro dentro dela a rir!…
Tem o velho ao colo o seu netinho doente; / – Morte negra, foge do telhado, ó, ó… – / E no lar as brasas simultaneamente / Dizem para o anjo: – tudo é oiro ardente… / Dizem para o velho: – tudo é cinza e pó!…
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