João e os Seus Camaradas (Edição de 1877)
Guerra Junqueiro (?–1923)
O começo
Era uma vez uma viúva com um filho único. Ao cabo de um inverno rigoroso, possuía apenas um galo, e meio alqueire de farinha. João resolveu-se a correr mundo, à busca de fortuna. A mãe coseu o resto da farinha, matou o galo, e disse-lhe:
«O que é que preferes: metade desta merenda com a minha benção, ou toda com a minha maldição?»
«Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos tesouros há no mundo eu quereria a tua maldição.»
«Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e Deus te abençôe.»
E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um jumento, que tinha caído num atoleiro, donde não podia sair.
«Oh! João, exclamou o burro, tira-me daqui, que estou quase a afogar-me.»
«Espera, respondeu João.»
E, formando uma ponte com pedras e ramos darvores, conseguiu tirar o quadrúpede do atoleiro.
«Obrigado, disse-lhe ele, aproximando-se de João. Se te posso ser útil, aqui me tens ao teu dispor. Aonde vais tu?»
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