Estrelas Indecifráveis
Euclides da Cunha (?–1909)
O começo
Conta-nos São Mateus daqueles três reis magos, que abalaram de seus países em busca do Messias recém-nado, conduzidos por uma estrela extraordinária que, improvisamente, resplandesceu na altura, em plena luz de um firmamento claro.
Não critiquemos, impiamente, a narrativa singela do primeiro evangelista.
Justifiquemo-la. Por aqueles tempos, da Caldeia à Grécia e à Itália, à Índia e à China, os graves acontecimentos, ao parecer dos mais sisudos astrólogos, prenunciavam-nos os céus. Do Maabárata à Ilíada , alonga-se um imaginoso devaneio: quando nasceram Crichna e Buda, alumiaram-se os horizontes em resplendores de quedas de bólidos; propícios clarões lustrais banharam o berço de Esculápio; e ao ruir, trabalhada das catapultas, a derradeira cortina dos muramentos de Tróia, aflorara no espaço a sétima estrela da constelação das Plêiadas…
Ora, para a vinda de Cristo aparelhara-se a antiguidade de esperanças religiosas tão vastas, que o messianismo judaico se generalizara em aspiração universal. Conchavavam-se, prognosticando-a, o histerismo das sibilas e o ilapso dos profetas: os cálculos imperfeitos dos primeiros astrônomos contemplativos, e os hexâmetros impecáveis dos poetas da Roma imperial. A cultura clássica, na sua plenitude, acolhia um eco longínquo das civilizações orientais, que terminavam. As rudes profecias de Balaão, pressagas do reinado deslumbrante de um deus nas terras eleitas de Israel, harmonizavam-se, de algum modo, às apóstrofes rítmicas do Prometeu , de Ésquilo, ao vaticinar, nos palcos atenienses, ante…
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