Artigo de Euclides da Cunha de 10 de Agosto de 1897
Euclides da Cunha (?–1909)
O começo
Baía, 10 de agosto.
Dizem os mais antigos habitantes da Bahia que nunca ela se revestiu da feição assumida nestes últimos dias.
Velha cidade tradicional, conservando melhor do que qualquer outra os mais remotos costumes, a sua quietude imperturbável desapareceu de todo. Modificaram-se hábitos arraigados, e, violentamente sacudida na onda guerreira que irrompe do sul, transfigurou-se.
Anima-a uma população adventicia de heróis: soldados que voltam mutilados e combalidos da luta, soldados que seguem entusiastas e fortes para a campanha. E presa nesse fluxo e refluxo de mártires que chegam e de valentes que avançam, sob o contágio dominador da febre que lavra nas almas dos combatentes, galvanisada pelo mesmo entusiasmo, ela parece ligar, através de longos anos de apatia, os dias atuais aos dias agitados das lutas da Independencia.
As velhas fortalezas de há muito abandonadas e em cujas muralhas disjungidas vegetavam, numa exuberância singular, árvores enormes promtamente reparadas, afileram novamente à luz, imponentes e formidáveis como se — voltada atrás uma página da história — desapontasse repentinamente, agora a quadra gloriosa de há cem anos.
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