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As Pegas de Cintra

Almeida Garrett (?–1854)

Poesia2 min de leitura2 páginas

O começo

Gavião, gavião branco / Vai ferido e vai voando; / Mas não diz quem no feriu, / Gavião, gavião branco!

O gavião é calado, / Vai ferido e vai voando; / Assim fora a negra pêga / Que há de sempre andar palrando.

A pêga é negra e palreira, / O que sabe vai contando… / Muito palra, palra a pêga / Que sempre há de estar palrando.

Mas quer Deus que os chocalheiros / Guardem às vezes, falando, / O segredo dos sisudos / Que eles não guardam callando.

Era uma pêga no paço / Que el-rei tomara, caçando; / Trazem-n'a as damas mimosa / Com a estar sempre afagando.

Nos paços era de Cintra / Onde estava el-rei poisando; / A rainha e suas damas / No jardim andam folgando,

Entre assucenas e rosas, / Entre os goivos trebelhando; / Umas regavam as flores, / Outras as vão apanhando;

E a minha pêga com elas / Sempre, sempre palreando. / Vinha el-rei atrás de todos / Com Dona Mécia falando.

Era a mais formosa dama / Que andava naquele bando; / No ombro de Dona Mécia, / A pêga vinha poisando.

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