Aquela Noite!
Almeida Garrett (?–1854)
O começo
Era a noite da loucura, / Da sedução, do prazer, / Que em sua mantilha escura / Costuma tanta ventura, / Tantas glórias esconder. / Os felizes… e ai!, são tantos… / Eu, por tantos os contava! / Eu, que o sinal de meus prantos / Do aflito rosto lavava – / Os felizes presunçosos / Iam nos coches ruidosos / Correndo aos salões doirados / De mil fogos alumiados, / Donde em torrentes saía / A clamorosa harmonia / Que à festa, ao prazer tangia.
Eu sentia esse ruído / Como o confuso bramar / De um mar ao longe movido / Que à praia vem rebentar: / E disse comigo: «Vamos, / Os lutos dalma dispamos, / À festa hei-de ir também eu!»
E fui: e a noite era bela, / Mas não vi a minha estrela / Que eu sempre via no céu: / Cobriu-a de espesso véu / Alguma nuvem a ela, / Ou era que já vendado / Me levava o negro fado / Onde a vida me perdeu?
Fui; meu rosto macerado, / A funda melancolia / Que todo o meu ser revia, / Qual o ataúde levado / A egípcio festim, dizia: / «Como vós fui eu também; / Folgai, que a morte aí vem!» / Dizia-o, sim, meu semblante, / Que, onde eu chegava, o prazer / Cessava no mesmo instante; / E o lábio, que ia a dizer / Doçuras de amor, gelava; / E o riso, que ia a nascer / Na face linda, expirava. / Era eu - e a morte em mim, / Que só ela espanta assim!
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