
Miragaia (Almeida Garrett)
Almeida Garrett (?–1854)
O começo — I
MIRAGAIA I / Noite escura tam formosa, / Linda noite sem luar, / As tuas estrelas de oiro / Quem nas poderá contar!
Como as folhinhas do bosque, / Como as areias do mar… / Em tantas letras se escreve / O que Deus mandou guardar.
Mas guai do homem que se fia / Nessas letras decifrar! / Que a ler no livro de Deus / Nem anjo pode atinar.
Bem ledo está Dom Ramiro / Com sua dama a folgar; / Um perro bruxo judio / Foi causa de ele a roubar:
Disse-lhe que pelos astros / Bem lhe podia afirmar / Que Zahara, a flor da beleza, / Lhe devia de tocar.
E o rei veio de cilada / Dalém do Doiro passar, / E furtou a linda moira, / A irmã de Alboazar.
A Milhor , que é terra sua / E está à beira do mar, / Se acolheu com sua dama, / Nem de mais sabe cuidar.
Chora a triste da rainha, / Não se pode consolar: / Deixá-la por ũa moira / Deixá-la com tal dezar!
E a noite é escura cerrada, / Noite negra sem luar, / Sosinha no seu balcão / Assim se estava a queixar:
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