Para Além Doutro Oceano de Coelho Pacheco
Fernando Pessoa (1888–1935)
O começo
Num sentimento de febre de ser para além doutro oceano / Houve posições dum viver mais claro e mais límpido / E aparências duma cidade de seres / Não irreais mas lívidos de impossibilidade, / consagrados em pureza e em nudez / Fui pórtico desta visão irrita e os sentimentos eram só o desejo de os ter / A noção das coisas fora de si, tinha-as cada um adentro / Todos viviam na vida dos restantes / E a maneira de sentir estava no modo de se viver / Mas a forma daqueles rostos tinha a placidez do orvalho / A nudez era um silêncio de formas sem modo de ser / E houve pasmos de toda a realidade ser só isto / Mas a vida era a vida e só era a vida / O meu pensamento muitas vezes trabalha…
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