Amei-te e por te Amar
Fernando Pessoa (1888–1935)
O começo
Amei-te e por te amar / Só a ti eu não via… / Eras o céu e o mar, / Eras a noite e o dia… / Só quando te perdi / É que eu te conheci…
Quando te tinha diante / Do meu olhar submerso / Não eras minha amante… / Eras o Universo… / Agora que te não tenho, / És só do teu tamanho.
Estavas-me longe na alma, / Por isso eu não te via… / Presença em mim tão calma, / Que eu a não sentia. / Só quando meu ser te perdeu / Vi que não eras eu.
Não sei o que eras. Creio / Que o meu modo de olhar, / Meu sentir meu anseio / Meu jeito de pensar… / Eras minha alma, fora / Do Lugar e da Hora…
Hoje eu busco-te e choro / Por te poder achar / Não sequer te memoro / Como te tive a amar… / Nem foste um sonho meu… / Porque te choro eu?
Não sei… Perdi-te, e és hoje / Real no […] real… / Como a hora que foge, / Foges e tudo é igual / A si-próprio e é tão triste / O que vejo que existe.
Em que és […J fictício, / Em que tempo parado / Foste o (…) cilício / Que quando em fé fechado / Não sentia e hoje sinto / Que acordo e não me minto…
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