Athena
Fernando Pessoa (1888–1935)
O começo — O Corvo
O Corvo DE EDGAR ALLAN POE (Traducção de Fernando Pessoa, rhythmicamente conforme com o original)
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste, / Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais, / E já quase adormecia, ouvi o que parecia / O som de alguém que batia levemente a meus humbraes. / «Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus humbraes. / E' só isto, e nada mais.»
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro, / E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais. / Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada / P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais — / Essa cujo nome sabem as hostes celestiais, / Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo / Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais! / Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo, / «E' uma visita pedindo entrada aqui em meus humbraes; / Uma visita tardia pede entrada em meus humbraes. / E' só isto, e nada mais.»
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