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Carta a Armando Côrtes-Rodrigues

Fernando Pessoa (1888–1935)

Biografia e memórias3 min de leitura2 páginas

O começo

Lisboa, 19 de Novembro de 1914.

Meu querido Amigo:

Creio que há duas malas que lhe não escrevo. Não lhe escrevo há uma, com certeza. Desculpe-me. Eu já não sou eu. Sou um fragmento de mim conservado num museu abandonado. Agora que a minha família que aqui estava foi para a Suíça, desabou sobre mim toda a casta de desastres que podem acontecer. Por isso estou numa abulia absoluta, ou quase absoluta, de modo que fazer qualquer coisa me custa como se fosse levantar um grande peso ou ler um volume do Teófilo.

Você também não me tem escrito. Pelo menos, desde a carta que v. me escreveu da cama, não recebi mais nenhuma. Por misericórdia, escreva-me; não se esqueça de me escrever. Estou no meio de uma desolação infinita.

Tenho feito versos, isso tenho; eu, na minha própria pessoa, mas esqueci-me hoje de os trazer para o escritório, de onde lhe estou escrevendo. Oxalá para a mala seguinte eu não me esqueça, e lhe possa mandar, como queria, uma cópia deles todos. Tinha também para lhe mandar, por ter relação com aquele estudo a meu respeito para o qual v. me pediu elementos, a genealogia do meu terceiro avô, que, por isso vem a ser a minha. Esta tenho na algibeira, mas custa-me muito, no meu atual estado de não-ser copiá-la, mesmo à máquina, porque é muito extensa. Outra vez e por esta outra razão eu lhe peço desculpa.

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