Em Busca da Beleza
Fernando Pessoa (1888–1935)
O começo
Soam vãos, dolorido epicurista, / Os versos teus, que a minha dor despreza; / Já tive a alma sem descrença presa / Desse teu sonho, que perturba a vista.
Da Perfeição segui em vã conquista, / Mas vi depressa, já sem a alma acesa, / Que a própria ideia em nós dessa beleza / Um infinito de nós mesmos dista.
Nem à nossa alma definir podemos / A Perfeição em cuja estrada a vida, / Achando-a intérmina, a chorar perdemos.
O mar tem fim, o céu talvez o tenha, / Mas não a ânsia da Cousa indefinida / Que o ser indefinida faz tamanha.
Nem defini-la, nem achá-la, a ela – / A Beleza. No mundo não existe. / Ai de quem coma alma inda mais triste / Nos seres transitórios quer colhê-la!
Acanhe-se a alma porque não conquiste / Mais que o banal de cada cousa bela, / Ou saiba que ao ardor de querer havê-la – / À Perfeição – só a desgraça assiste.
Só quem da vida bebeu todo o vinho, / Dum trago ou não, mas sendo até o fundo, / Sabe (mas sem remédio) o bom caminho;
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