Hora Absurda
Fernando Pessoa (1888–1935)
O começo
O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas… / Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso… / E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas / Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso…
Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte… / O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto… / Minha ideia de ti é um cadáver que o mar traz à praia…, e no entanto / Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte…
Abre todas as portas e que o vento varra a ideia / Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões… / Minha alma é uma caverna enchida p'la maré cheia, / E a minha ideia de te sonhar uma caravana de histriões…
Chove ouro baço, mas não no lá-fora…É em mim…Sou a Hora, / E a Hora é de assombros e toda ela escombros dela… / Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora… / No meu céu interior nunca houve uma única estrela…
Hoje o céu é pesado como a ideia de nunca chegar a um porto… / A chuva miúda é vazia…A Hora sabe a ter sido… / Não haver qualquer coisa como leitos para as naus!…Absorto / Em se alhear de si, teu olhar é uma praga sem sentido…
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