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Casa Branca Nau Preta

Fernando Pessoa (1888–1935)

Poesia3 min de leitura2 páginas

O começo

Estou reclinado na poltrona, é tarde, o Verão apagou-se… / Nem sonho, nem cismo, um torpor alastra em meu cérebro… / Não existe manhã para o meu torpor nesta hora… / Ontem foi um mau sonho que alguém teve por mim… / Há uma interrupção lateral na minha consciência… / Continuam encostadas as portas da janela desta tarde / Apesar de as janelas estarem abertas de par em par… / Sigo sem atenção as minhas sensações sem nexo, / E a personalidade que tenho está entre o corpo e a alma…

Quem dera que houvesse / Um terceiro estado prà alma, se ela tiver só dois… / Um quarto estado prà alma, se são três os que ela tem… / A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar / Dói-me por detrás das costas da minha consciência de sentir…

As naus seguiram, / Seguiram viagem não sei em que dia escondido, / E a rota que deviam seguir estava escrita nos ritmos, / Os ritmos perdidos das canções mortas do marinheiro de sonho…

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