O Linho (Edição de 1877)
Guerra Junqueiro (?–1923)
O começo
O linho estava coberto de flores admiravelmente belas, mais delicadas e transparentes do que azas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre ele, e as nuvens regavam-n'o, o que lhe causava tanto prazer, como o de um filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo.
— Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido, e serei brevemente uma rica peça de pano. Sinto-me feliz. Não há ninguém que seja mais feliz do que eu sou. Tenho saúde e um belo futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou feliz, feliz a mais não poder ser!»
— Como és ingenuo! disseram as silvas do valado; tu não conheces o mundo, de que nós outras temos uma larga experiencia.»
E rangendo lastimosamente, cantaram:
— Cric, crac! cric, crac! crac! / — Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
— Não tão cedo como vocês imaginam, respondeu o linho; está uma bela manhã, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e florir. Sou muitíssimo feliz.»
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