Formosa e Gentil Dama
O começo
Formosa e gentil Dama, quando vejo / a testa de ouro e neve, o lindo aspeito, / a boca graciosa, o riso honesto, / o colo de cristal, o branco peito, / de meu não quero mais que meu desejo, / nem mais de vós que ver tão lindo gesto. / Ali me manifesto / por vosso a Deus e ao mundo; ali me inflamo / nas lágrimas que choro, / e de mim, que vos amo, / em ver que soube amar-vos, me namoro; / e fico por mim só perdido, de arte / que hei ciúmes de mim por vossa parte.
Se porventura vivo descontente / por fraqueza desprito, padecendo / a doce pena que entender não sei, / fujo de mim e acolho-me, correndo, / à vossa vista; e fico tão contente / que zombo dos tormentos que passei. / De quem me queixarei / se vós me dais a vida deste jeito / nos males que padeço, / senão de meu sujeito, / que não cabe com bem de tanto preço? / Mas inda isso de mim cuidar não posso, / de estar muito soberbo com ser vosso.
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