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Despois que Magalhães Teve Tecida

Luís Vaz de Camões

História4 min de leitura3 páginas

O começo

Despois que Magalhães teve tecida / A breve historia sua, que illustrasse / A Terra Santa Cruz, pouco sabida;

Imaginando a quem a dedicasse, / Ou com cujo favor defenderia / Seu livro dalgum zoilo que ladrasse;

Tendo nisto ocupada a fantasia, / Lhe sobreveio hum sono repousado, / Antes que o sol abrisse o claro dia.

Em sonhos lhe aparece todo armado / Marte, brandindo a lança furiosa, / Com que fez quem o viu todo enfiado;

Dizendo em voz pezada e temerosa: / Não he justo que a outrem se ofereça / Obra alguma que possa ser famosa,

Senão a quem por armas resplandeça / No largo inundo com tal nome e fama, / Que louvor imortal sempre mereça.

Disse assi: quando Apollo, que da flama / Celeste guia os carros, de outra parte / Se lhe presenta, e por seu nome o chama,

Dizendo: Magalhães, posto que Marte / Com seu terror t'espante, todavia / Comigo deves só de aconselhar-te.

Hum Varão sapiente, em quem Thalia / Poz seus tesouros, e eu minha ciência, / Defender tuas obras poderia.

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