Sôbolos Rios que Vão
O começo
Sôbolos rios que vão / Por Babylonia, me achei, / Onde sentado chorei / As lembranças de Sião, / E quanto nela passei. / Ali o rio corrente / De meus olhos foi manado; / E tudo bem comparado, / Babylonia ao mal presente, / Sião ao tempo passado.
Ali lembranças contentes / Nalma se representárão; / E minhas cousas ausentes / Se fizeram tão presentes, / Como se nunca passárão. / Ali, despois dacordado, / Co'o rosto banhado em ágoa, / Deste sonho imaginado, / Vi que todo o bem passado / Não he gosto, mas he mágoa
E vi que todos os danos / Se causavão das mudanças, / E as mudanças dos anos; / Onde vi quantos enganos / Faz o tempo às esperanças. / Ali vi o maior bem / Quão pouco espaço que dura; / O mal quão depressa vem; / E quão triste estado tem / Quem se fia da ventura.
Vi aquilo que mais val / Qu'então s'entende melhor, / Quando mais perdido for: / Vi ao bem suceder mal, / E ao mal muito pior. / E vi com muito trabalho / Comprar arrependimento: / Vi nenhum contentamento; / E vejo-me a mi, qu'espalho / Tristes palavras ao vento.
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