A Instabilidade da Fortuna
O começo
A instabilidade da Fortuna, / os enganos suaves de Amor cego, / (suaves, se duraram longamente), / direi, por dar à vida algum sossego; / que, pois a grave pena me importuna, / importune meu canto a toda a gente. / E se o passado bem co mal presente / me endurece a voz no peito frio, / o grande desvario / dará de minha pena sinal certo, / que um erro em tantos erros é concerto. / E, pois nesta verdade me confio / (se verdade se achar no mal que digo), / aiba o mundo de Amor o desconcerto, / ue já co a Razão se fez amigo, / só por não deixar culpa sem castigo.
Já Amor fez leis, sem ter comigo algũa; / já se tornou, de cego, arrazoado, / só por usar comigo sem-razões. / E, se em algũa cousa o tenho errado, / com siso, grande dor não vi nenhũa, / nem ele deu sem erros afeições. / Mas, por usar de suas isenções, / buscou fingidas causas por matar-me; / que, para derrubar-me / no abismo infernal de meu tormento, / não foi soberbo nunca o pensamento, / nem pretende mais alto alevantar-me / daquilo que ele quis; e se ele ordena / que eu pague seu ousado atrevimento, / saiba que o mesmo Amor que me condena / me fez cair na culpa e mais na pena.
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