Já a Roxa Manhã Clara
O começo
Ja a roxa manhãa clara / As portas do Oriente vinha abrindo; / Os montes descobrindo / A negra escuridão da luz avara. / O sol, que nunca pára, / Da sua alegre vista saudoso, / Traz ela pressuroso / Nos cavalos cansados do trabalho, / Que respirão nas ervas fresco orvalho, / S'estende claro, alegre e luminoso. / Os pássaros voando, / De raminho em raminho vão saltando; / E com suave e doce melodia / O claro dia estão manifestando.
A manhãa bela, amena, / Seu rosto descobrindo, a espessura / Se cobre de verdura / Clara, suave, angelica, serena. / Oh deleitosa pena! / Oh efeito de Amor alto e potente! / Pois permite e consente / Qu'ou donde quer qu'eu ande, ou dond'esteja, / O seraphico gesto sempre veja, / Por quem de viver triste sou contente. / Mas tu, Aurora pura, / De tanto bem dá graças à ventura, / Pois as foi pôr em ti tão excelentes, / Que representes tanta formosura.
A luz suave e leda / A meus olhos me mostra por quem mouro, / Com os cabelos douro, / Que nenhum ouro iguala, se os remeda. / Esta a luz he que arreda / A negra escuridão do sentimento / Ao doce pensamento; / Os orvalhos das flores delicadas / São nos meus olhos lagrimas cansadas, / Qu'eu choro co'o prazer de meu tormento; / Os pássaros que cantão, / Meus espíritos são, que a voz levantão, / Manifestando o gesto peregrino / Com tão divino som, que o mundo espantão.
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