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Junto de um Seco, Fero e Estéril Monte

Luís Vaz de Camões

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O começo

Junto de um seco, fero e estéril monte, / inútil e despido, calvo, informe, / da natureza em tudo aborrecido; / onde nem ave voa, ou fera dorme, / nem rio claro corre, ou ferve fonte, / nem verde ramo faz doce ruído; / cujo nome, do vulgo introduzido / é felix, por antífrase, infelice; / o qual a Natureza / situou junto à parte / onde um braço de mar alto reparte / Abássia, da arábica aspereza, / onde fundada já foi Berenice, / ficando a parte donde / o sol que nele ferve se lhe esconde;

nele aparece o Cabo com que a costa / africana, que vem do Austro correndo, / limite faz, Arómata chamado / (Arómata outro tempo, que, volvendo / os céus, a ruda língua mal composta, / dos próprios outro nome lhe tem dado). / Aqui, no mar, que quer apressurado / entrar pela garganta deste braço, / me trouxe um tempo e teve / minha fera ventura. / Aqui, nesta remota, áspera e dura / parte do mundo, quis que a vida breve / também de si deixasse um breve espaço, / porque ficasse a vida / pelo mundo em pedaços repartida.

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