À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais
Fernando Pessoa (1888–1935)
O começo
LONGE DA FAMA e das espadas, / Alheio às turbas ele dorme. / Em torno há claustros ou arcadas? / Só a noite enorme.
Porque para ele, já virado / Para o lado onde está só Deus, / São mais que Sombra e que Passado / A terra e os céus.
Ali o gesto, a astúcia, a lida, / São já para ele, sem as ver, / Vácuo de ação, sombra perdida, / Sopro sem ser.
Só com sua alma e com a treva, / A alma gentil que nos amou / Inda esse amor e ardor conserva? / Tudo acabou? / No mistério onde a Morte some / Aquilo a que a alma chama a vida, / Que resta dele a nós - só o nome / E a fé perdida?
Se Deus o havia de levar, / Para que foi que no-lo trouxe - / Cavaleiro leal, do olhar / Altivo e doce?
Soldado-rei que oculta sorte / Como em braços da Pátria ergueu, / E passou como o vento norte / Sob o ermo céu.
Mas a alma acesa não aceita / Essa morte absoluta, o nada / De quem foi Pátria, e fé eleita, / E ungida espada.
Se o amor crê que a Morte mente / Quando a quem quer leva de novo / Quão mais crê o Rei ainda existente / O amor de um povo! / Quem ele foi sabe-o a Sorte, / Sabe-o o Mistério e a sua lei. / A Vida fê-lo herói, e a Morte / O sagrou Rei!
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.