A Seca do Ceará
Leandro Gomes de Barros (?–1918)
O começo
Seca as terras as folhas caem, / Morre o gado sai o povo, / O vento varre a campina, / Rebenta a seca de novo; / Cinco, seis mil emigrantes / Flagelados retirantes / Vagam mendigando o pão, / Acabam-se os animais / Ficando limpo os currais / Onde houve a criação.
Não se vê uma folha verde / Em todo aquele sertão / Não há um ente daqueles / Que mostre satisfação / Os touros que nas fazendas / Entravam em lutas tremendas, / Hoje nem vão mais o campo / É um sítio de amarguras / Nem mais nas noites escuras / Lampeja um só pirilampo.
Aqueles bandos de rolas / Que arrulavam saudosas / Gemem hoje coitadinhas / Mal satisfeitas, queixosas, / Aqueles lindos tetéus / Com penas da cor dos céus. / Onde algum hoje estiver, / Está triste mudo e sombrio / Não passeia mais no rio, / Não solta um canto sequer.
Tudo ali surdo aos gemidos / Visa o aspectro da morte / Como a nauta em mar estranho / Sem direção e sem Norte / Procura a vida e não vê, / Apenas ouve gemer / O filho ultimando a vida / Vai com seu pranto o banhar / Vendo esposa soluçar / Uma adeus por despedida.
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