
Urupês (5ª Edição)
Monteiro Lobato (?–1948)
O começo — A Colcha de Retalhos
A natureza por estes dias de Março acorda tarde. Passa as manhãs embrulhada num roupão de neblinas e é com espreguiçamentos de mulher vadia que despe os veus da cerração para o banho de sol. A névoa esmaia o relevo da paisagem, desbota-lhe as cores. Tudo parece coado através dum cristal despolido.
Vejo a orla de capins tufados como debrum pelo fio dos barrancos; vejo o roxo-terra da estrada descorar passos adiante; e nada mais vejo senão, a espaços, o vulto gotejante dalguns angiqueiros marginais.
Agora, uma porteira.
Aqui, a encruzilhada do Labrego.
Tomo à destra, em direitura ao sítio do José Alvorada.
Este sujeito mora-me a talho de pegar um roçado no capoeirão convisinho aos Periquitos, nata de ferra que pelas bocas do caheté legítimo, da unha de vaca e da caquéra está a clamar foice e covas de milho.
Não é difícil a puxada: com cinquenta braças de carreador bóto a roça no caminho.
Três alqueires, só no bom. Talvez quatro. A noventa por um — nove vezes quatro trinta e seis: trezentos e sessenta alqueires de oito mãos. Descontadas as bandeiras que o porco estraga e o que comem a paca e o rato… Será a filha do Alvorada?
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