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Primeiro Fausto

Fernando Pessoa (1888–1935)

Teatro11 min de leitura9 páginas

O começo — I

Para onde fugirei?

Ele é a vida e a morte

Ó Dor, aonde me irei?

O mistério de tudo

Aproxima-se tanto do meu ser,

Chega aos olhos meus dalma tão [de] perto,

Que me dissolvo em trevas e universo…

Em trevas me apavoro escuramente.

O perene mistério, que atravessa

Como um suspiro céus e corações…

O mistério ruiu sobre a minha alma

E soterrou-a… Morro consciente!

Acorda, eis o mistério ao pé de ti!

E assim pensando riu amargamente,

Dentro em mim riu como se chorasse!

Ah, tudo é símbolo e analogia!

O vento que passa, a noite que esfria,

São outra coisa que a noite e o vento —

Sombras de vida e de pensamento.

Tudo o que vemos é outra coisa.

A maré vasta, a maré ansiosa,

É o eco de outra maré que está

Onde é real o mundo que há.

Tudo o que temos é esquecimento.

A noite fria, o passar do vento,

São sombras de mãos, cujos gestos são

A ilusão madre desta ilusão.

Mundo, confranges-me por existir.

Tenho-te horror porque te sinto ser

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