Quinto Império
Fernando Pessoa (1888–1935)
O começo
Vibra, clarim, cuja voz diz. / Que outrora ergueste o grito real / Por D. João, Mestre de Aviz, / E Portugal!
Vibra, grita aquele hausto fundo / Com que impeliste, como um remo, / Em El-Rei D. João Segundo / O Império extremo!
Vibra, sem lei ou com lei, / Como aclamaste outrora em vão / O morto que hoje é vivo — El-Rei / D. Sebastião!
Vibra chamando, e aqui convoca / O inteiro exército fadado / Cuja extensão os polos toca / Do mundo dado!
Aquele exército que é feito / Do quanto em Portugal é o mundo / E enche este mundo vasto e estreito / De ser profundo.
Para a obra que há que prometer / Ao nosso esforço alado em si, / Convoco todos sem saber / (É a Hora!) aqui!
Os que, soldados da alta glória, / Deram batalhas com um nome, / E de cuia alma a voz da história / Tem sede e fome.
E os que, pequenos e mesquinhos, / No ver e crer da externa sorte, / Convoco todos sem saber / Com vida e morte.
Sim, estes, os plebeus do Império; / Heróis sem ter para quem o ser, / Chama-os aqui, ó som etéreo / Que vibra a arder!
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