O Jesuíta (José de Alencar)
O começo — I
CONDE – Então?
CORREIA – Saiu.
CONDE – Com quem falastes?
CORREIA – Com a sua caseira.
CONDE – Quando volta? Perguntastes?
CORREIA – Não sabe.
CONDE – Impossível…
CORREIA – Insisti, porém nada pude colher.
CONDE – Desconfiou talvez.
CORREIA – Não creio. Disse-lhe, como me ordenou V. Ex., que se tratava de um doente.
CONDE – Não importa: ele há de tornar. É preciso que hoje mesmo o tenha em meu poder.
CORREIA – Como! É intenção de V. Ex. prendê-lo?
CONDE – Não interroga senão quem tem o direito de saber, Miguel Correia. Conhecereis minhas intenções, quando vos der as minhas ordens.
CORREIA – Perdão, Sr. Conde; sei o que devo a meu superior e o que me devo a mim mesmo; não tive propósito de interrogar a V. Ex.; foi simples admiração.
CONDE – E em que vos admira a prisão desse homem? Dizei-o!…
CORREIA – Permite o Sr. Governador que eu seja franco?
CONDE – Ordeno, se é preciso.
CORREIA – Não ignora V. Ex. que o doutor Samuel é estimado de todos; não há miséria ou infortúnio nesta cidade à que ele não leve um alívio ou um consolo. A sua ciência é tão profunda, quanto sua bolsa é rasa; ao passo que uma serve ao rico, a outra pertence aos pobres.
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