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As Asas de um Anjo

José de Alencar

Teatro2 h 20 de leitura123 páginas

O começo — Texto Introdutório

A boa vontade dos Editores, que o ano passado deram à estampa o DEMÔNIO FAMILIAR, traz agora à luz da imprensa as ASAS DE UM ANJO, no momento em que tudo me afasta das lidas literárias.

O muito que tinha a dizer e criticar sobre a minha obra e as censuras de que foi alvo, deixo-o pois à reflexão dos homens esclarecidos; bem como deixo aos metodistas da literatura e da arte a sua classificação de escola realista.

A realidade, ou melhor, a naturalidade; a reprodução da natureza e da vida social no romance e na comédia, não a considero uma escola ou um sistema; mas o único elemento da literatura; a sua alma. O servilismo do espírito eivado pela imitação clássica ou estrangeira, e os delírios da imaginação tomada do louco desejo de inovar, são aberrações passageiras: desvairada um momento, a literatura volta, trazida por força irresistível, ao belo, que é a verdade.

Se disserem, que alguma vez copiam-se da natureza e da vida, cenas repulsivas, que a decência, o gosto e a delicadeza não toleram — concordo. Mas aí o defeito não está na literatura, e sim no literato; não é a arte que renega do belo; é o artista, que não soube dar ao quadro esses toques divinos que doiram as trevas mais espessas da corrupção e da miséria.

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