Um Episódio da Luta
Euclides da Cunha (?–1909)
O começo
Em dias de junho ultimo um dos filhos de Macumbira, adolescente de quinze anos abeirou-se do rude chefe sertanejo:
- Pai, quero destruir a matadeira. (Sob tal denominação indicam os jagunços o canhão Krupp, 32, que tem feito entre eles estragos consideráveis).
O sinistro cabecilha, espécie grosseira de Imanus acobreado e bronco, fitou-o impassível:
- Consulta o Conselheiro - e vai.
E o rapaz seguiu acompanhado de onze companheiros atrevidos.
Atravessaram o Vasa-Barris seco e fracionado em cacimbas, investiram contra a primeira encosta à margem direita, embrenharam-se, num deslizar macio e silencioso de icobras, pelas catingas próximas.
Já era meio o dia.
O sol, num firmamento sem nuvens, dardejava a pino sobre os largos tabuleiros, lançando sem fazer sombria, até ao fundo das quebradas mais fundas, os raios verticais, ardentes.
Naquelas paragens longínquas e ingratas o meio dia é mais silencioso e lúgubre do que as mais tardias horas da noite. Reverberando nas rochas expostas, largamente refletido nas chapadas desnudadas, sem vegetação ou absorvidas por um solo seco e áspero de grez, os raios solares aumentam de ardor, e o calor emitido para a terra reflui para o espaço nas calunas ascendentes do ardilatado, morno, irrespirável quase.
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