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Artigo de Euclides da Cunha de 19 de Março de 1892

Euclides da Cunha (?–1909)

Crônica e ensaio3 min de leitura2 páginas

O começo

Acabo de ler uma página iluminada de Spencer, em que o eminente evolucionista — como bom filósofo crente na perfectibilidade humana — vaticina uma idade de ouro, durante a qual por um mais dilatado domínio das forças naturais se satisfaçam mais facilmente as necessidades imperiosas da existência e menos assoberbada de trabalhos, tenha afinal a humanidade tempo de aformosear a vida, pela contemplação do belo na natureza e na arte.

O ilustre mestre deixou-se arrebatar demais, pelas tendências profundamente humanas de seu grande espírito.

O stuggle for life , a fórmula majestosa da nossa elevação constante, terá a mesma feição autoritária e fatal, embora atuando entre os deslumbramentos da mais alta civilização.

O grande domínio do homem sobre as forças naturais, a que ele se refere, é ilusório, ante o princípio geral da relatividade.

As forças ou leis descobertas criaram fatalmente a necessidade de outras e a humanidade — se tornando cada vez mais forte, para uma luta cada vez maior — realizará através dos séculos a dolorosa lenda de Ahasverus, subjugada às leis que a impulsionam, com o mesmo fatalismo das que fixam no espaço a órbita dilatada do insignificante planeta que a conduz…

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