Artigo de Euclides da Cunha de 20 de Agosto de 1897
Euclides da Cunha (?–1909)
O começo
Aguardando ainda, contrafeito, a próxima partida para o sertão, percorro — desconhecido e só — como um grego antigo nas ruas de Bizâncio as velhas ruas desta grande capital, num indagar persistente acerca de suas belas tradições e observando a sua feição interessante de cidade velha chegando, intacta quase, do passado a estes dias agitados.
E lamento que o objetivo capital e exclusivo desta viagem me impeça estudá-la melhor e transmitir as impressões recebidas.
Porque é realmente inevitável esta intercurrência de sensações estranhas e diversas, invadindo de modo irresistível o assunto e programa preestabelecidos.
Numa hora assaltam-me, às vezes, as mais desencontradas impressões.
Visitando, há pouco, o mosteiro de S. Bento, por exemplo, onde se acumulam agora os feridos que chegam, depois de atravessar por entre extensos renques de leitos contristadores, desci ao pavimento inferior.
Atravessei as naves extensas, cautelosamente, a passos calculados, olhos fixos no chão, procurando não pisar as lagens tumulares sobre as quais indiferentes pisam todos os devotos e onde se leem, ainda, semi-apagadas pelo atrito persistente das botas, nomes entre os mais velhos da nossa história. — E despeando-me de todo do objetivo que me levara até ali — acurvado sobre as lousas que aparecem como palimpsestos de mármore mal descobertos memorando remotissimos dias, permaneci largo tempo, absorto.
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