Artigo de Euclides da Cunha de 23 de Agosto de 1897
Euclides da Cunha (?–1909)
O começo
Há quinze anos, em 1882, o tenente-coronel Durval Vieira de Aguiar foi incumbido pelo governo provincial da inspeção de todos os destacamentos policiais da Bahia.
Enérgico e resoluto o digno funcionário atravessou de extremo a extremo as paragens perigosas do sertão, revelando-se observador perspicaz e inteligentíssimo.
E fez um livro no qual se condensam dados estatísticos valiosos sobre as povoações visitadas e interessantes notas acerca da existência primitiva das mais afastadas povoações — emoldurados por um estilo fluente e claro.
Extrato, respeitando todos os grifos, da página 79 daquele livro — Descrições práticas da província da Bahia — um longo trecho cuja significação é hoje maior do que na época em que foi escrito.
O autor refere-se à sua passagem por Monte Santo:
"Quando por ali passamos achava-se na povoação um célebre Conselheiro, sujeito baixo, moreno acaboclado, de barbas e cabelos pretos e crescidos, vestido de camisolão azul, morando sozinho em uma desmobiliada casa, onde se apinhavam as beatas e afluiam os presentes, com os quais se alimentava. Este sujeito é mais um fanático do que um anacoreta e a sua ocupação consiste em pregar uma incompleta moral, ensinar rezas, fazer prédicas banais, rezar terços e ladainhas com o povo; servindo-se para isto das igrejas, onde, diante do viajante civilizado, se dá a um irrisório espetáculo, especialmente quando recita um latinório que nem ele nem os ouvintes entendem.O povo costuma afluir em massa aos…
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