O Marinheiro
Fernando Pessoa (1888–1935)
O começo
Um quarto que é sem dúvida num castelo antigo. Do quarto vê-se que é circular. Ao centro ergue-se, sobre uma essa, um caixão com uma donzela, de branco. Quatro tochas aos cantos. À direita, quase em frente a quem imagina o quarto, há uma única janela, alta e estreita, dando para onde só se vê, entre dois montes longínquos, um pequeno espaço de mar. Do lado da janela velam três donzelas. A primeira está sentada em frente à janela, de costas contra a tocha de cima da direita. As outras duas estão sentadas uma de cada lado da janela. É noite e há como que um resto vago de luar.
PRIMEIRA VELADORA - Ainda não deu hora nenhuma. SEGUNDA - Não se pode ouvir. Não há relógio aqui perto. Dentro em pouco deve ser dia. TERCEIRA - Não: o horizonte é negro. PRIMEIRA - Não desejais, minha irmã, que nos entretenhamos contando o que fomos? É belo e é sempre falso... SEGUNDA - Não, não falemos nisso. De resto, fomos nós alguma cousa? PRIMEIRA - Talvez. Eu não sei. Mas, ainda assim, sempre é belo falar do passado… As horas têm caído e nós temos guardado silêncio. Por mim, tenho estado a olhar para a chama daquela vela. Às vezes treme, outras torna-se mais amarela, outras vezes empalidece. Eu não sei por que é que isso se dá. Mas sabemos nós, minhas irmãs, por que se dá qualquer…
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