
Negrinha (4º Milheiro)
Monteiro Lobato (?–1948)
O começo — Negrinha
NEGRINHA era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não, fusca, mulatinha escura, de cabelos russos e olhos assustados.
Nascera de mãe escrava, na senzala, e seus primeiros anos de vida vivera-os pelos cantos escusos da cozinha, sobre farrapos de esteira e panos imundos. Sempre escondida, que a patrôa não gostava de crianças.
Excelente senhora, a patrôa. Gorda, rica. dona do mundo, amimada pelos padres, com logar certo na igreja e camarote de luxo garantido no céu. Entaladas as banhas no trono, uma cadeira de balanço na sala de jantar, ali bordava, recebendo as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora, em suma — "dama de grandes virtudes apostólicas, dizia o padre, esteio da religião e da moral".
Optima a D. Ignacia. Mas não admitia choro de criança. Ai! punha-lhe os nervos em carne viva. Viuva sem filhos, não a callejara o choro da carne da sua carne, e por isso não suportava o choro da carne da carne escrava. Assim, mal vagia. longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo, nervosa:
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