Mister Slang e o Brasil
Monteiro Lobato (?–1948)
O começo — Capítulo 1
O arvoredo sempre enfolhado dum dos belos sítios da Tijuca esconde a deliciosa vivenda de Mr. Slang, rubicundo britânico que há mais de oito lustros reside entre nós. Quem sóbe de bonde não avista a sua casa, nem sequer a suspeita. Esse inglês, além de filósofo, revela uma certa misantropia, muito consentanea num "gentleman" que o destino lançou para longe do "fog" londrino. Prefere o contacto das coisas ao contacto dos homens, embora possua meia dúzia de amigos, com os quais conversa entre goles de whisky e intermináveis partidas de xadrez.
Quis o acaso que eu viesse a figurar entre tais amigos. Frequento amiude o delicioso “bungalow”, bebo do excelente whisky importado diretamente e ainda dou, de vez em quando, meus cheques mates no dono.
Nada disto tem que ver com o publico; mas acho que tem, e muito, a velha experiencia e a longa observação de Mr. Slang a respeito das coisas nacionais, objeto constante dos nossos debates. Eis por que me vi no dever de reduzi-los a escrito e estampá-los num órgão de variada expressão mental como este. “Wisdom” é riqueza. A de Mr. Slang contribuirá, talvez, para o enriquecimento de algum espirito amigo da verdade, embora eu esteja convencido da absoluta tolice que é em nossa terra dar atenção à pobre dama que mora no poço.
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