Os Caucheros
Euclides da Cunha (?–1909)
O começo
Aquém da margem direita do Ucayali e das terras onduladas, onde se formam os manadeiros do Javari, do Juruá e do Purus, apareceu há cerca de cinquenta anos uma sociedade nova. Formara-se obscuramente. Perdida longo tempo no afogado das selvas, apenas a conheciam raros comerciantes do Pará, onde, desde 1862, começaram a chegar, provindas daqueles pontos remotos, as pranchas pardo-escuras de uma outra goma elástica concorrente com a seringa às exigências da indústria.
Era o caucho. E “caucheiros” apelidaram-se para logo os aventurosos sertanistas que batiam atrevidamente aquêles rincões ignorados.
Vinham do ocidente, transpondo os Andes e suportando todos os climas da Terra, dos litorais adustos do Pacífico às punas enregeladas das cordilheiras. Entre eles e o torrão nativo ficavam duas muralhas altas de seis mil metros e um longo valo escancelado em abismos. Adiante os plainos amazônicos: um estiramento de centenares de milhas para NE, a perder-se, indefinido, na prolongação atlântica, sem a juga de um cerro balizando a imensidade.
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