
O Poeta Chiado (Novas Investigações sobre a Sua Vida e Escritos)
Alberto Pimentel (1849–1925)
O começo — I
As relações de amizade entre os vivos e os mortos são menos quebradiças e ephémeras do que as dos vivos uns com outros.
E a razão é fácil de explicar: quem vai, não volta.
Os mortos não falam, não intrigam, não atraiçôam, não desmerecem, por isso, da estima e consideração em que uma vez os tomamos.
Affeiçôa-se a gente a um escritor, a um maestro , a um pintor ou a um estatuário, que morreu há muitos anos ou há longos séculos, e não deixamos apagar nunca a lampada do seu culto: colleccionamos-lhe as obras sem olhar a dinheiro, por mais raras que sejam; conservamô-las em grande veneração como tesouros que um avarento aferrolha a sete chaves; e estamos sempre prontos a combater de ponto em branco pela gloria e beleza Pág. 6 de suas produções, quando aparece algum zoilo a menosprezá-las com azedume.
E se nas relações com os vivos fazemos seleção do caráter deles para estabelecer convivência e amizade, pouco nos importa a condição e procedimento dos mortos quando os estimamos em suas criações artísticas ou literárias com intransigente fanatismo.
Alberto Pimentel (autor) morreu em 1925; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1996.