
Mundo da Lua
Monteiro Lobato (?–1948)
O começo — 1
MEU maior amigo chamava-se Helio Bruma. Com ele convivi em intimidade estreitissima até aos vinte anos. Por aí, como a "vida pratica" me acenasse e fosse ele o mais impenitente dos contemplativos — vulgo pateta, separamo-nos de boa cara. Helio abraçou-me, dizendo:
— Adeus. Mudo-me para Marte.
— ?!…
— Sim, Marte, o planeta. Tinha um amigo na Terra, tu; mas vejo-te mudado, cheio de ideias praticas, de olhos ferrados na vitória. Isso fatalmente nos separará no correr do tempo. Ora, se tem de ser assim amanhã, precipitemos os acontecimentos: seja boje. Adeus! Como lembrança deixo-te o meu diário. Casa-te, procrêa, ganha dinheiro, sê feliz. Quando deres de engordar, lê-m'o. Adeus!
Disse e sumiu-se.
Por muito tempo conservei na gaveta o diário do meu amigo. Pesava-me, e a balança acusava sempre cinquenta e seis quilos. Agora que acusa cinquenta e nove, julgo-me em ponto de bala para folhear o misterioso calbamaço. Faço-o, e encontro pequeninos quadros, paisagens, retratos, instantaneos psíquicos, sonhos, ideias, revoltas, agedumes. Gaveta de sapateiro de um menino que prometia.
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