
Triste Fim de Policarpo Quaresma
Lima Barreto (1881–1922)
O major Quaresma, que ama o Brasil até o fim: quer o tupi como língua oficial, planta, luta pela República — e é traído por ela.
O começo — I A LIÇÃO DE VIOLÃO
Como de habito, Policarpo Quaresma, mais conhecido por major Quaresma, bateu em casa às 4 e 15 da tarde. Havia mais de vinte anos que isso acontecia. Saindo do Arsenal de Guerra, onde era subsecretário, bongava pelas confeitarias algumas frutas, comprava um queijo, às vezes, e sempre o pão da padaria francesa.
Não gastava nesses passos nem mesmo uma hora, de forma que, às 3 e 40, por aí assim, tomava o bonde, sem erro de um minuto, ia pisar a soleira da porta de sua casa, numa rua afastada de S. Januário, bem exatamente às 4 e 15, como se fosse a aparição de um astro, um eclipse, enfim um fenômeno matematicamente determinado, previsto e predito.
A vizinhança já lhe conhecia os hábitos e tanto que, na casa do Capitão Claudio, onde era costume jantar-se aí pelas quatro e meia, logo que o viam passar, a dona, gritava à criada: «Alice, olha que são horas; o Major Quaresma já passou».
E era assim todos os dias, há quase trinta anos. Vivendo em casa própria e tendo outros rendimentos além do seu ordenado, o major Quaresma podia levar um trem de vida superior aos seus recursos burocráticos, gozando, por parte da vizinhança, da consideração e respeito de homem abastado.
Lima Barreto (autor) morreu em 1922; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1993.