A Obra de um Ideólogo
Lima Barreto (1881–1922)
O começo
A obra do Sr. José Saturnino de Brito já é digna de exame. Entre pequenos e maiores, ela já conta cerca de Oito trabalhos, que são: Socialismo progressivo, A cooperação é um Estado, A pirataria em paroxismo, A Escravidão dos pequenos lavradores e Socialismo pátrio, além das peças: Amor, vence! e Entre neblinas.
Esta última, que foi publicada há dois anos, é deveras interessante, por vários motivos, e muito poeticamente se passa nas Paineiras. O melhor é darmos a palavra ao autor, a fim de que ele mesmo descreva o cenário:
"Stélio se acha no terraço das Paineiras. Escreve, sentado a uma mesa. Vê-se uma parte do hotel, o pavilhão envidraçado à E.. um trecho de bosque à D. O fundo de cena é todo neblina."
Stélio, que é poeta, artista e revolucionário, escreve e lê isto, depois de escrito:
"A hipocrisia dos que me acolheram entre lisonjas, me julgando rico, correu parelhas com a difamação promovida pelos perversos e o silêncio pretensioso dos falsos críticos; foices de salafrários, por entre a dentuça, expeliram sobre mim o insulto soez, abrindo-se no meu caminho como cloacas humanas.. A esse sonhador solitário, cujo desespero, anunciado no trecho acima, não tardará em transformar-se em desânimo, felizmente, em tão perturbado momento, surge a seus olhos uma verdadeira visão de divindade florestal; e isso ela o é já pela beleza que há de por força ter (o que é sempre indispensável em deuses e deusas seja de que religião for), já pelo mistério do aparecimento.
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