A Maçã e a Polícia
Lima Barreto (1881–1922)
O começo
Noticiam os jornais que a polícia por intermédio de seus agentes e prepotentes, anda a vigiar a A Maçã, semanário que o ilustre poeta Humberto de Campos publica com um sal que, se não é de azedas, deve ser ático.
Sou escritor e, se mérito outro não tenho, me gabo de ser independente.
Sendo assim, não admito críticas a meus livros e aos meus escritos senão aquelas provindas de escritores que como eu não dispõem de força, nem de chanfalho. Admitir que um simples delegado de polícia ou uma praça de pré do meu amigo coronel Badaró esteja nos casos de julgar os meus escritos, é abdicar do meu esforço silencioso e doloroso durante vinte anos, para dizer o meu pensamento sincero - o que julgo essencial em ajuda da maior felicidade da comunhão humana.
A polícia, pela sua feição própria, é incapaz desse papel de censura de qualquer manifestação de pensamento.
Ela é uma emanação do governo; e é da natureza dos governos não admitirem crítica. Quando se os critica, ela apela para a ordem e para a moralidade. Dai o perigo que há em se entregar à polícia, qualquer poder que incida sobre a liberdade de pensamento. Fazendo-a, ela faz obra dos governos e em qualquer trecho do escrito, ela encontra atentados à moral. Perguntarei aos policiais: o que é moral? Eles não saberão dizer; e, se o souberem, dirão que é a homenagem que o vício presta à virtude, disfarçando-se e escondendo-se.
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.