
Dom Casmurro
Machado de Assis (1839–1908)
A pergunta não é se Capitu traiu. É se dá para acreditar em quem está contando.
Por que ler
Um homem velho manda construir uma réplica da casa em que cresceu, para ver se a casa devolve a vida que ele teve. Não devolve — então ele escreve. O livro é a defesa dele, feita por ele, sobre um casamento que acabou mal. Machado publicou em 1899, no fim de uma carreira em que passou a vida escrevendo narradores em quem não se pode confiar, e este é o mais bem-acabado deles.
Para observar
Repare em quem está falando. Bentinho conta tudo: escolhe o que entra, o que fica de fora, e a ordem. Toda prova contra Capitu passa pela boca dele. Ao terminar um capítulo, pergunte: isso aconteceu, ou é ele dizendo que aconteceu?
O começo — I · Do titulo.
Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Comprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.
—Continue, disse eu acordando.
—Já acabei, murmurou ele.
—São muito bonitos.
Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: «Dom Casmurro, domingo vou jantar com você.»—«Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Rhenania; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo.»—«Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na…
Machado de Assis (autor) morreu em 1908; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1979.