Livros › Machado de Assis › A Mosca Azul

Capa de A Mosca Azul

A Mosca Azul

Machado de Assis (1839–1908)

Poesia2 min de leitura2 páginas

O começo

Era uma mosca azul, azas de ouro e granada, / Filha da China ou do Indostão, / Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada, / Em certa noite de verão.

E zumbia, e voava, e voava, e zumbia / Refulgindo ao clarão do sol / E da lua, — melhor do que refulgiria / Um brilhante do Grão-Mogol.

Um poleá que a viu, espantado e tristonho, / Um poleá lhe perguntou: / «Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho, / Dize, quem foi que t’o ensinou?»

Então ela, voando, e revoando, disse: / — «Eu sou a vida, eu sou a flor

«Das graças, o padrão da eterna meninice, / «E mais a gloria, e mais o amor.»

E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo, / E tranquilo, como um faquir, / Como alguém que ficou deslembrado de tudo, / Sem comparar, nem refletir.

Entre as azas do insecto, a voltear no espaço, / Uma cousa lhe pareceu / Que surdia, com todo o resplendor de um paço / E viu um rosto, que era o seu.

Era ele, era um rei, o rei de Cachemira, / Que tinha sobre o colo nu / Um imenso colar de opala, e uma safira / Tirada do corpo de Vischnu.

Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.

Mais de Machado de Assis