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A Derradeira Injúria

Machado de Assis (1839–1908)

Poesia7 min de leitura6 páginas

O começo

E ainda, ninfas minhas, não bastava…

CAMÕES, Lusíadas, VII, 81.

Vês um féretro posto em solitária igreja? / Esse pó que descansa, e se esconde, e se some, / Traz de um grande ministro o formidável nome, / Que em vivas letras de ouro e lágrimas flameja.

Lá fora uma invasão esquálida braceja, / Como um mar de miséria e luto, que tem fome, / E novas praias busca e novas praias come, / Enquanto a multidão, recuando, peleja.

O gaulês que persegue, o bretão que defende, / Duas mãos de um destino implacável e oculto, / Vão sangrando a nação exausta que se rende;

Dentre os mortos da história um só único vulto / Não ressurge; um Pacheco, um Castro não atende; / E a cobiça recolhe os despojos do insulto.

Ora, na solitária igreja em que se há posto / O féretro, se alguém pudesse ouvir, ouvira / Uma voz cavernosa e repassada de ira, / De tristeza e desgosto.

Era uma voz sem rosto, / Um eco sem rumor, uma nota sem lira. / Como que o suspirar do cadáver disposto / A rejeitar o leito eterno em que dormira.

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