
Quincas Borba
Machado de Assis (1839–1908)
Uma filosofia que justifica qualquer crueldade, levada a sério por um homem só.
Por que ler
O Humanitismo — a doutrina que Quincas Borba inventa — diz que ao vencedor cabe tudo, e que o derrotado não tem do que reclamar. Machado põe essa ideia na cabeça de Rubião e mostra o que ela faz com uma pessoa comum. É um livro sobre como uma teoria bonita vira permissão.
Para observar
Preste atenção em quem repete a frase "ao vencedor, as batatas", e em que situação. A frase muda de sentido conforme quem a usa.
O começo — CAPITULO PRIMEIRO
Rubião fitava a enseada,—eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra cousa. Cotejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Tunis, que lhe deu recente amigo, Christiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade.
—Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa ele. Se a mana Piedade tem casado com o Quincas Borba, apenas me daria uma esperança colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraça…
Machado de Assis (autor) morreu em 1908; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1979.