Livros › Machado de Assis › O Pai

Capa de O Pai

O Pai

Machado de Assis (1839–1908)

Contos44 min de leitura39 páginas

O começo

O pai vivia de hortelão; a filha vivia da costura; ambos viviam de uma esperança no futuro e de uma reparação do passado.

Tinha cinquenta anos o pai. Os cabelos brancos cahião-lhe em flocos da cabeça como uma cascata e davam realce ao rosto severo, enérgico, mas ao mesmo tempo cheio de uma dor profunda e resignada. Os anos o tinham curvado um pouco; mas era esse o único vestígio do tempo. Os cabelos brancos e algumas rugas da cara tinham-lhe aparecido em poucos dias, não gradual, por uma transformação rápida, como se ali passasse um vento maldito e destruidor.

Os olhos profundos, serenos, perscrutadores, pousavão em alguém como se foram os olhos da consciência; e ninguém os sofria por muito tempo, tal era a magia deles.

Tinha a franqueza, sem ter a intimidade; não oferecia a casa a ninguém, nem ia à casa alheia em ocasião alguma. Tinha fé nos homens, mas não a fé da credulidade cega; era uma fé que examinava, perscrutava, esmerilhava; não se fiava nas aparências, não se deixava fascinar pelos primeiros aspectos; quando acreditava em um homem tinha-lhe analisado o coração.

Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.

Mais de Machado de Assis