O Pai
Machado de Assis (1839–1908)
O começo
O pai vivia de hortelão; a filha vivia da costura; ambos viviam de uma esperança no futuro e de uma reparação do passado.
Tinha cinquenta anos o pai. Os cabelos brancos cahião-lhe em flocos da cabeça como uma cascata e davam realce ao rosto severo, enérgico, mas ao mesmo tempo cheio de uma dor profunda e resignada. Os anos o tinham curvado um pouco; mas era esse o único vestígio do tempo. Os cabelos brancos e algumas rugas da cara tinham-lhe aparecido em poucos dias, não gradual, por uma transformação rápida, como se ali passasse um vento maldito e destruidor.
Os olhos profundos, serenos, perscrutadores, pousavão em alguém como se foram os olhos da consciência; e ninguém os sofria por muito tempo, tal era a magia deles.
Tinha a franqueza, sem ter a intimidade; não oferecia a casa a ninguém, nem ia à casa alheia em ocasião alguma. Tinha fé nos homens, mas não a fé da credulidade cega; era uma fé que examinava, perscrutava, esmerilhava; não se fiava nas aparências, não se deixava fascinar pelos primeiros aspectos; quando acreditava em um homem tinha-lhe analisado o coração.
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