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O Pai da Ideia

Lima Barreto (1881–1922)

Crônica e ensaio2 min de leitura2 páginas

O começo

Tendo irrompido na capital de certo país uma epidemia de moléstia terrível que matava milhares de pessoas por dia, a junta do governo se viu obrigada a fazer o serviço compulsório de coveiros e requisitar palácios para hospitais. Um mé­dico modesto, mas sábio, passado o flagelo, saiu de sua mo­déstia e escreveu num jornal ou numa revista de pouca importância, um artigo simples, claro, sem arrebiques de pés­sima literatura pernóstica, sem fumaças de ciência e de clínica, lembrando a conveniência de se criarem mais hospitais públicos e situá-los em diversas zonas da cidade, para sem­pre poderem eles atender à população eficazmente, nas épocas normais e anormais.

Pouca gente leu o artigo do honesto facultativo, mas todos os seus colegas o fizeram, sem que, entretanto, nada disses­sem logo.

Passa-se um mês, quando já todos estavam esquecidos das palavras do bom esculápio sem trombetas, bulha e mati­nada, quando apareceu no principal jornal da cidade um ar­tigo desmedido, escrito com o bolor de vocábulos antigos, re­cheado de citações e exemplos de outras terras e termos hí­bridos do grego e do hebraico, repetindo as sugestões do velho prático que lembrara a criação de hospitais semeados pela capital do país.

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