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Canudo-de-Pito

Amadeu Amaral (?–1929)

Biografia e memórias5 min de leitura4 páginas

O começo

A manhã, hoje, era uma festa, e o meu bairro, todo em manchas aéreas e frescas de paredes claras, telhados vermelhos, jardins verdes, morros azulegos e violáceos a derreterem-se na distância como caramelos, me divertia como uma paisagem refletida numa bola de cristal. Eu não tinha senão olhos, enquanto o bonde corria. "Corre mais devagar, bonde do diabo! que assim como vais se me atrapalha tudo. - Corre mais depressa, bonde do inferno! que assim lentamente a desfilada das coisas mal se liberta da rigidez e do peso."

De repente, do meio da grande nuvem escura de um velho bosque, saltou como de um capulho, uma nuvem amarela, a fronde arredondada de uma árvore de ouro. "Olhe, que lindo! "(disse eu ao meu vizinho mais chegado, o Sr. João Cesário da Costa, capitalista, quarenta e oito anos). "Veja aquele ipê!" O meu vizinho deu uma olhadela e informou friamente: "Canudo-de-pito".

O fato de se tratar de um canudo-de-pito, e não de ipê, madeira de lei, influía decisivamente na reação da sua sensibilidade ante aquele quadro fugente e alucinatório. O mundo, para ele, reduziu-se a uma coleção de conceitos, ou a um dicionário ilustrado. Costa não foi composto para comunicar diretamente com as coisas, no absoluto momentâneo e original da sensação, nesse largo e surpreendente aquém da ideia e do pensamento, mais maravilhoso e menos triste do que o Além por onde vagam os Fabianos.

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