Camelô
Amadeu Amaral (?–1929)
O começo
Viajei ontem ao lado de um camelô, ou seja aquilo que outrora se chamava um bufarinheiro ou charlatão. Hoje, esta última palavra designa categorias mais ilustres de artistas da patranha; era preciso um vocábulo novo, que evitasse confusões; a lei de repartição de Bréal.
Pus-me a observar os gestos e as expressões do meu companheiro de viagem, como outros examinam, fascinados, os homens eminentes em certos ramos clássicos de atividade ou de inatividade superior.
Modesto e simples não parecia sequer sonhar que pudesse merecer a curiosidade e admiração de um seu semelhante (aliás muito diverso, no meu caso). Por vezes, até se esquecia de si, e ficava para ali murcho, com esse ar aparvalhado e desarmado que só costumam ter, em público, bem familiarizadas com a ideia da sua nenhuma importância.
Ia muito sumido no seu canto, fumando maquinalmente um cigarro meio apagado. Talvez premido por dentro, como por um parafuso, por alguma preocupação de família, ou de dinheiro, ou de saúde.
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